Troca a água, dá ração ao Coronel e fecha a porta. Passa pelo porteiro e dá-lhe bom dia perante seu olhar incrédulo. Talvez fosse o chapéu, talvez a sacola de palha, ou o biquíni, ou até mesmo o fato de nunca tê-lo cumprimentado. Olegária usa os óculos de sol de muitos anos atrás, grande, escuro e de armação branca, igual ao da artista da novela. O porteiro adianta-se e abre-lhe a porta e, pela primeira vez também, ela lhe dá um sorriso e agradece.
Na rua as pessoas a observam ao que ela retribui com sorrisos. Está esforçando-se. Sorrir não lhe é tarefa fácil, mesmo que para desconhecidos seja menos difícil. Em alguns minutos ganha o calçadão e arrisca-se a caminhar algumas quadras. Sente-se quase nua naquele biquíni diminuto, o que lhe traz recordações que lhe facilitam o riso. O sol lhe convida para descer até a areia e ela vai como se fosse há cinqüenta anos atrás, quando causava alvoroço na praia com seus trajes avançados para seu tempo.
Senta-se na areia com dificuldade e começa a ser abordada por todos os tipos de vendedores: picolés, redes, sanduíches, castanhas, roupas, maconha, queijo assado...
- Psst! Moço da maconha, volte aqui!
Fuma seu baseado sob olhares incriminadores e até isso lhe oferece recordações.
- Vão tomar nos seus respectivos cus! - fala alto para a platéia entre baforadas e ri com vontade novamente. Nova Olegária? Ela pensa... Não, a antiga repaginada...
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Capítulo 37 - Sol
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Silvio Vasconcellos
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Capítulo 36 - Insight
Apesar do desapontamento com a psiquiatra, Olegária não pára de pensar nela. Há muito tempo não tinha falado tanto com alguém. De olho na janela e acariciando o Coronel ela dá-se conta que não havia ido até lá para ouvir, queria alguém para ouvi-la, nem que tivesse que pagar. Pronto, havia encontrado uma prostituta auditiva, conclui: "eu falo, ela escuta, eu pago, ela ouve mais". Nunca fora muito chegada em putas, mas a essa altura da vida, nada estava descartado. Sim, voltaria lá. Dra. Ruth era a sua piranha, sua cadela, sua puta. Falaria de sexo ao extremo e, quem sabe, descobriria porque estava tão amarga nos últimos anos. Nem ela mais se agüentava.
Coronel dorme no parapeito enquanto ela procura o mar no horizonte. Lá na calçada outra barata sai do boeiro e atravessa a rua perante os carros indefesos. Vem em direção a seu prédio. Será que o porteiro não vai fazer nada?
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terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Capítulo 34 - Doutores
Na saída do consultório médico, ela olha as horas. Quer chegar a tempo de assistir a novela das sete. Não está satisfeita. Abriu-se feito um livro ao médico, contou passagens tristes, outras lascivas, outras quem nem lembrava mais. Ele a ouviu por meia hora calmamente e, por fim, disse que ela deveria procurar um analista, não um pneumologista. Era a primeira consulta médica após o afogamento e a nova Olegária precisava falar muito. Ele era a primeira pessoa que via depois de dois dias de retiro em que mudou móveis de lugar, livrou-se de alguns entulhos de seus armários, reviu fotos, rasgou outras e deu um nome ao gato: Coronel.
Por sorte o consultório é perto de seu apartamento e poderia ainda passar na Pet Shop para comprar ração, na farmácia, os seus medicamentos e na padaria para ver o atendente. Porém, antes da esquina, depara-se com uma placa que lhe chama atenção: "Dra. Ruth Campanello - psiquiatra". Entra e agenda um horário para a semana seguinte.
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Capítulo 33 - Em casa
Chega em casa de ambulância. Alguns vizinhos e transeuntes assistem a cena. No meio da calçada, levanta-se da maca e diz que pode andar. O porteiro, com seu gato no colo, tenta ampará-la, ao que ela recusa.
Nos breves minutos entre o hospital e sua casa um devaneio lhe perturbou. Imagem de baratas, do Sargento e de um outro gato misturavam-se com o barulho de sirenes que vinha da rua.
Entra no apartamento e bate a porta para que o folgado da portaria não se enveredasse para dentro. Abre de novo a porta e pede o gato, que desce dos braços dele e se enrosca nas suas pernas. Ela tem vontade de empurrá-lo, mas contém-se.
A casa completamente limpa como havia deixado nada se parece com aquela que a pouco estava tão real na sua mente.
Lembra-se que havia recusado a visita do Sargento. Não suportava a idéia de que ele a visse deitada num leito hospitalar. Recorda-se do enfermeiro afetado fechando o sorriso e saindo do quarto para falar com o pai.
Como numa resolução repentina, fala para si mesma no espelho ao lado da porta:
- Olegária, está na hora de fazer algumas mudanças, sua velha ranzinza.
O gato solta um miado como se concordasse e ao seu lado uma barata solitária assiste a tudo.
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terça-feira, 27 de novembro de 2007
Capítulo 31 - Hospital
Acorda-se, finalmente. Acabara de sonhar que havia acordado de outro sonho. Como lhe parecera a televisão está realmente ligada, porém não há barata alguma. O que há é o enfermeiro cobrindo suas pernas e verificando o soro. Ele a vê de olhos abertos e um sorriso largo estampa sua face negra. Gesticula desmesuradamente e aproxima-se mais.
- Dona Olegária, que bom que acordou!
Ele sabe o seu nome e ela emudece. Não quer dar confiança a ele ou ela, seja o que for. Sempre vem uma pergunta depois de uma resposta...
- Sabia que meu pai lhe conhece?
Era só o que faltava, pensa Olegária virando os olhos para a televisão, mostrando desinteresse.
- Ele a viu na televisão... Meu pai é sargento reformado. Ele disse que a senhora deve lembrar-se dele - termina de falar e abre um outro sorriso, inclinando a cabeça e apoiando a enorme e delicada mão na beirada da cama.
Finalmente Olegária sorri...
- Filho do Sargento, é? - e ela desata a rir como há muito anos não fazia...
- Em pessoa, coração! Aliás, ele está ali fora esperando para vê-la.
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terça-feira, 20 de novembro de 2007
Capítulo 29 - Pós trauma
Acorda-se numa sala branca e a primeira coisa que faz é erguer a mão. Vê as manchas senis e resmunga um palavrão. Aquele delírio que lhe dera outra vida acaba ao abrir os olhos. Ao seu lado, um enfermeiro negro a olha atentamente e lhe mostra um sorriso tão alvo que chega a lembrar o velho Sargento. A não ser pelo fato de ser totalmente efeminado, juraria que havia viajado no tempo.
Olha para o outro lado e vê o porteiro do prédio segurando seu gato e Albacir Romão que lhe acena.
Agora lembra-se do afogamento e entende o porquê do atendimento médico.
Albacir se aproxima e lhe fala que ela estava no noticiário da televisão, como a senhora que beijou o galã e agora tornou-se heroína, arriscando-se para salvar seu gato. Conta-lhe de como fora reconhecida na praia por já terem-na visto num programa vespertino beijando o artista da novela.
Olegária diz que quer ir-se para casa ao que o enfemeiro, completamente afetado, diz ser impossível.
- Então traga a televisão! - diz para o porteiro que alisa seu gato, que parece sorrir.
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terça-feira, 6 de novembro de 2007
Capítulo 27 - Socorro
Quando a onda lhe bate aos pés, Olegária levanta-se ainda sorrindo de suas lembranças que lhe aquecem por dentro. Volta-se para os rapazes ali tão perto e não resiste aos impulsos que um corpo saudoso é capaz de orquestrar.
Chega mais perto do mar, solta seu gato na água, que na força das ondas de maio é rapidamente tragado para a água.
Ela vira-se para os jogadores e grita com toda a força que o cigarro não foi capaz de sugar-lhe:
- Socorro, meu gato está se afogando! Socorro, rapazes!!
Rapidamente três deles vêm em sua direção e ela, fingindo um ar de pavor, aproxima-se mais do bichano que ainda tenta safar-se das garras d'água. Porém, o mar está com fome e dobra suas pernas e a puxa para dentro. Antes que eles chegassem ela já se debate apavorada.
Ao afundar pela segunda vez, vê que um deles tem seu gato nos braços e outro se aproxima dela.
Engole muita água e mergulha impotente. Não vê mais nada...
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terça-feira, 30 de outubro de 2007
Capítulo 25 - Areia
Escuta um alvoroço em frente ao prédio, logo cedo. Aproxima-se da janela e vê jornalistas com câmeras e microfones conversando com o porteiro, que aponta-lhes justamente seu apartamento. O beijo ao artista em pleno cenário a fez celebridade instantânea. Sabe que isso é passageiro, mas mesmo assim não quer exposição. Sorrateiramente sai do apartamento, desce até a garagem e ganha a rua sem ser notada.
Caminha em direção à praia, que há tanto tempo ignorara. Ao alcançar a última quadra, escuta um miado familiar e descobre junto dela seu gato. Irritada pela companhia improvável, pega-lhe desajeitadamente e o encara:
- Gato estúpido! O que você quer comigo? Seu bosta, agora vou ter que voltar para lá...
Antes de dar a volta, vislumbra o oceano a sua frente e, na areia, um grupo de rapazes jogando volei de praia. Não, não vai voltar agora. Põe o gato embaixo do braço como se fosse uma bolsa, passa rente a eles, olhando-os detalhadamente e anda em direção ao mar.
De um lado o gato, no outro o par de sapatos. Olegária senta-se na areia e sem perceber, acaricia o gato, que finalmente ronrona para ela.
- Era só o que me faltava! Se continuar fazendo isso lhe afogo, gato maricas!
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terça-feira, 23 de outubro de 2007
Capítulo 23 - Manchetes
- Albacir? Já lhe falei que sou eu quem ligo, nunca você! Sim, era eu. Sim, vi. Sim, em todos os jornais... Por quê? Não lhe interessa, Albacir... Fiz porque quis... Como assim lhe consultar? Alguma vez disse que você saberia o que eu faria? Só lhe conto o que fiz, nunca o que tenho a fazer. Albacir... Cale sua boca e escute! Não vou dar entrevista e não quero que você dê. Albacir? Albacir? Escute, Albacir... Quando eu quiser falar com você eu ligo. Antes que eu me esqueça, Albacir, vá tomar no seu cu!
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terça-feira, 9 de outubro de 2007
Capítulo 21 - Em cena
Enquanto limpa o cinzeiro na janela, observa uma movimentação diferente na praça Lido. À sombra das grandes árvores, uma equipe da televisão grava a novela da noite. Olegária assiste o diretor mandando o homem beijar com mais vontade a diva com quem contracena. Ela não crê no que vê e resolve ir até lá.
Um segurança ainda tenta detê-la, mas ela não toma conhecimento. Atravessa o set de filmagem, pega o rapaz pelo braço e ele lhe sorri pensando tratar-se de mais um autógrafo. Ela dá um sorriso para disfarçar sua atenção, pega-lhe pela cabeleira e antes de tascar um beijo que consome suas energias, diz para ele:
- Assim que se beija, seu viado!
O diretor manda cortar, mas o câmera não resiste a oportunidade de gravar e vender o flagrante.
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terça-feira, 2 de outubro de 2007
Capítulo 19 - Aniversário
Quando toca novamente o telefone, ela recém acabara de voltar ao sofá. Pragueja, apaga o cigarro no cinzeiro postado ao lado da xícara de café e alcança o aparelho a tempo. Aquela voz irritante e rouca do outro lado da linha, apesar dos anos passados ainda lhe é familiar. Seu primo Astolfo, pergunta se é ela, ao que recebe de resposta:
- Quem mais poderia ser, Astolfo?
- Feliz aniversário, Olegária!
Ela emudece, tentando definir se era o dia, zombaria ou piada de mau gosto.
- Tá de sacanagem comigo, velho idiota?
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Desliga o telefone, vai a janela e espia o mar distante. O gato salta ao parapeito e se encosta ao seu braço. Por um instante ela se permite o contato até resmungar "aniversário...", empurrar o gato e ir até a cozinha buscar um café. "Aniversário... que bobagem!", fala para o gato que agora já está comendo ração como se estivesse numa festa.
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terça-feira, 25 de setembro de 2007
Capítulo 17 - Paredes
As novelas da tarde são repetições de antigas, mas gosta de ver os artistas e constatar o quanto estão envelhecido. Para ela é um deleite ver que o tempo castiga as celebridades.
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No resto do dia, assiste todas, até mesmo mudando de canais durante os noticiários. Conversa com as vilãs, dá dicas de como castigar ou acabar com as santinhas, que chama de burras e estúpidas. “Até meu gato é mais esperto!”, resmunga entre um cigarro e outro.
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Esta noite, porém, ouve um barulho diferente, que a princípio pensa fazer parte do enredo. Depois de três toques percebe que é seu telefone, que há meses não tocava. “Logo na hora que a Dolores vai se ferrar”, resmunga enquanto procura o chinelo por baixo do gato. Ao quinto toque alcança o aparelho, que já emudecera. “Puta que pariu!”, berra tão alto que a vizinha do lado bate na parede. “Cala boca, velha sarna!”, grita de novo, ganhando seu silêncio de volta.
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terça-feira, 18 de setembro de 2007
Capítulo 15 - Mar
Gosta de arrumar seu apartamento. Se distrai tirando o pó e sacudindo o tapete na janela da frente, apesar dos protestos do porteiro. Sente uma satisfação quando ele grita lá da portaria: “De novo, Dona Olegária?”, mas fazer o quê se o gato estúpido enche de pêlos sua casa?
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Enquanto faz isso, aproveita e dá uma olhada na rua arborizada. Gosta de observar se há alguém a espreita para roubá-la, ou alguma prostituta fora de hora.
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Nota algo diferente naquela manhã. No final da rua, faltam algumas árvores e uma faixa azul se estende no horizonte. “O mar!”, fala para o gato que mia e se esfrega na sua perna, antes de empurrá-lo para longe. Nem lembrava mais que está tão perto da praia.
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terça-feira, 4 de setembro de 2007
Capítulo 13 - Domingos
Aos domingos vai de ir para cama mais cedo. Sempre sentiu uma nostalgia nesse dia e preferia que acabasse logo. Porém, desde que os novos vizinhos mudaram-se para o andar de cima, esse dia ganhou nova expectativa.
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Quando as crianças param com sua algazarra, vem o som do chuveiro e em seguida começa a sessão romance. O casal conversa, ri e invariavelmente acaba em sexo.
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Olegária escuta o ranger da cama, as batidas da cabeceira na parede e os gemidos de prazer sufocados por beijos. Havia outras noites que acontecia, porém domingo é certeiro e assim ela adquire o hábito de não reclamar de nada e passa a gostar de domingos. Apesar de que não há novelas nesse dia, acha que estão mais longos ultimamente.
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terça-feira, 28 de agosto de 2007
Capítulo 11 - Vizinhos
Chega ao prédio um tanto ofegante e cruza na porta com os novos vizinhos do andar de cima. O homem não é muito mais novo que Olegária, porém sua mulher poderia ser sua filha, talvez até sua neta. Seguram a porta para que ela entre e o homem tira o boné que lhe protege a calva, num reflexo remoto que denota outros tempos. Na tentativa vã de aproximar suas idades, ele parece estar disfarçado de jovem, com bermudão comprido afivelado abaixo da cintura, evidenciando a barriga, sandália de tiras largas onde avoluma o joanete e um bigode pintado que não esconde a raiz branca. Ela, trazendo pela mão um dos filhos, tem os cabelos alisados e tingidos de um loiro que contrasta com sua pele morena.
Olegária olha diretamente nos olhos dos dois, que lhe sorriem e dizem " Boa tarde!".
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Olegária não devolve o sorriso, não responde, segue em direção ao elevador enquanto resmunga:
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- Puta.
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O homem, incrédulo, chega a perguntar:
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- Como?
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Ela aperta o botão e não se dá ao trabalho de explicar o que a mulher certamente entendeu.
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terça-feira, 21 de agosto de 2007
Capítulo 9 - Bolachas
Abre a geladeira e conclui que não há outra alternativa: teria que sair e fazer algumas compras. Aproveitaria e passaria na farmácia e na volta na padaria, tudo a menos de três quarteirões.
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Compra o essencial, aproveita e pega algum dinheiro no caixa eletrônico, passa na farmácia, apresenta a receita e paga sem precisar trocar uma palavra.
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Ainda é cedo, quatro da tarde, tempo suficiente de passar na padaria e pela vitrine observar o padeiro a preparar o pão. Não é como antigamente, há máquinas com botões coloridos, mas o ofício de estender a massa ainda é feito por um rapaz. Até que ele lhe olhe e dê um sorriso, fica por ali. Vai embora e esquece-se do pão. Comeria bolachas essa noite.
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terça-feira, 14 de agosto de 2007
Capítulo 7 - Soldados
O primeiro raio de sol encontra Olegária abrindo a carta. No mesmo instante ela escuta o barulho ritmado da tropa em treinamento: "Quatro, três, dois, um. Um, dois, três, quatro!" gritam os policiais pela rua.
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A data é de quase cinquenta anos atrás, mas o teor lhe arde os olhos. O Sargento lhe conta da noiva, do casamento que viria e do quanto gostava dela; queria que seguisse seu rumo, que se arranjasse com alguém. Sempre soube que era carta de despedida e por isso mesmo nunca a abriu. Nos anos que se seguiram ele várias vezes lhe perguntou se abrira a carta e dissera que era a última vez que se encontrariam. Ela não a abria, ele voltava a procurá-la e a paixão renascia. Com o tempo a carta fora esquecida permitindo que a vida desse um paralelo ao destino.
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No alvoroço de Copacabana aqueles rapazes compassam as batidas dos pés, o que leva Olegária e suas lembranças à janela. Repara cada rapaz, seus movimentos, seus corpos e por instantes acaricia o gato que subiu ao parapeito da janela. Assustada com sua atitude perante o animal, dá-lhe um tapa e o desequilibra. O gato cai do segundo andar em frente à porta do prédio, mas ainda corre em direção ao canteiro rente à rua, como se quisesse ver mais de perto o movimento incomum na rua.
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- Venha cá, seu gato estúpido!
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O Cabo que vai à frente olha para ela, abre um sorriso largo e branco no rosto negro e suado.
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- É comigo ou com esse gato aqui? - pergunta apontando o felino assustado.
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Os rapazes riem e continuam a marcha: "Quatro, três, dois, um. Um, dois, três, quatro".
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O porteiro que assiste a tudo apanha o gato e o leva para o apartamento. Olegária emudece, amordaçada em pensamentos. Antes de rasgar a carta um pingo de lágrima borra a assinatura do Sargento e ela resmunga num sorriso:
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- Que caligrafia horrível, Sargento!
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terça-feira, 7 de agosto de 2007
Capítulo 5 - Carta
Acorda-se de madrugada com um pensamento fixo e não quer esperar o amanhecer. Desce os pés, procura o chinelo de pano e acaba chutando o gato, que assustado corre para baixo da cama. Busca a cadeira na cozinha e com a dificuldade da idade e da noite mal-dormida sobe e abre a porta de cima do armário. Baixa uma mala empoeirada, de cor que fica entre o marrom e o verde musgo e a atira sobre a cama. Novamente o gato foge, dessa vez para sala.
- Gato estúpido! - ralha com o bichano, que apesar de ser sua companhia mais próxima, nunca merecera um nome.
Desce da cadeira, senta-se e abre as fivelas, que de tanto tempo fechadas custam a ceder seus segredos. As fotos amareladas, misturadas com todos os tipos de contas que se guarda para nunca mais encontrar e mais alguns papéis e cartas desbotados ocultam àquela que agora queria achar e que nunca havia aberto. Encontra-a, apanha os óculos na cômoda e vai para a sala sentar-se no sofá, pisando, no caminho, no excremento que o gato deixou em protesto. "Tenho que comprar mais areia para o gato estúpido", pensa antes de sentar-se, sem dar-se ao trabalho de limpar o chinelo.
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quarta-feira, 25 de julho de 2007
Capítulo 1 - Hippies
Na rua uma manifestação toma conta pela liberdade de expressão. Ela abre a janela e grita:
- Arruaceiros! Por que não vão prá casa, seus hippies?!
Eles nem a notam na janela do segundo andar do prédio de pintura descascada e continuam com seus apitos, cartazes e gritos de ordem.
Olegária cerra a janela, aumenta o volume, empurra o gato que tomara seu lugar no sofá e apaga o cigarro na xícara de café.
- Cambada de vagabundos!
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